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06
FEV
2014

As lições de Nelson Rodrigues

Por Alberto Carlos Almeida | Para o Valor, de São Paulo 

 
Na abertura da Copa das Confederações, a presidente Dilma foi vaiada. Joseph Blatter, presidente da Fifa, buscando socorrê-la, solicitou à torcida que tivesse “fair play”. Obviamente, não foi atendido em seu pedido. Os brasileiros jamais atenderão alguém que se notabilizou por criticar o Brasil, por nos atacar em nossa suposta incapacidade de organizar adequadamente uma Copa do Mundo. A vaia continuou. 

Considerando-se esse episódio, é razoável afirmar que é elevada a probabilidade de que Dilma seja novamente vaiada na abertura da Copa do Mundo. Lula foi vaiado no Rio de Janeiro na abertura dos Jogos Pan-Americanos, menos de um ano depois de ter sido reeleito presidente. Aqueles que vão a tais eventos são pessoas de renda mais elevada, pessoas de classe alta que, em sua maioria, rejeitam o PT e seus políticos. Basta ver os mapas de votação que contrastam as áreas ricas e pobres de cada cidade. Se a abertura da Copa do Mundo fosse em um estádio do Nordeste, em Pernambuco, na Bahia ou no Ceará, e se a maioria dos torcedores presentes fossem pessoas de renda baixa, as chances de vaia seriam mínimas. Mas a abertura da Copa será em São Paulo e a renda média de quem estará no estádio é a do 1% mais rico da pirâmide social brasileira. 

Não é tudo. Devidamente revisitado e atualizado, Nelson Rodrigues nos ajuda a entender a vaia para além de um fenômeno de aprovação ou reprovação política fundamentada em um perfil de classe social. Ele foi o primeiro que considerou o futebol no Brasil não como um esporte ou como um mero entretenimento, mas como um drama social, representação de quem nós, brasileiros, somos. É por meio do futebol que o brasileiro mostra quem é e, muitas vezes, quem gostaria de ser. Dilma poderá entrar vaiada e sair aplaudida, se encarar o futebol da mesma forma que Nelson Rodrigues o fez. Vamos a ele. 

O grande torcedor deste que hoje é o time mais injustamente criticado no Brasil, o Fluminense (aliás, Nelson Rodrigues só podia mesmo ser tricolor), afirmou que o Maracanã nasceu com a vocação da vaia. Nada mais atual, se lembrarmos que Lula foi vaiado no Maracanã. Ali, ou mesmo em qualquer estádio brasileiro, “vaia-se até mesmo um minuto de silêncio”. Blatter não sabia disso ao pedir o “fair play” – e assim se explica que seu pedido tenha sido ignorado. Para Nelson Rodrigues, vaia-se até minuto de silêncio porque não há na biografia do brasileiro um único e escasso momento de ternura. O brasileiro é o impotente da admiração. Não sabemos admirar, não gostamos de admirar. Ou, às vezes, só admiramos estando em um terreno baldio e na presença apenas de uma cabra vadia. Somos um povo que berra o insulto e sussurra o elogio. É por isso que a vaia surge quase sem querer, como num automatismo inapelável. Ao saber disso, a presidente Dilma pode reverter a vaia. 

Dilma pode ser aplaudida ao final de seu discurso, se considerar, a partir de agora, que cada exibição de nossa seleção será uma aventura pessoal de quase 200 milhões de brasileiros. Se ela entender, como fez Nelson Rodrigues, que não há distância entre nós e a equipe verde-amarela. Há, raramente, uma distância falsa, irreal. Na verdade, estamos encarnados na seleção, quer admitamos isso ou não. Foi justamente por isso que em 1958, 1962, 1970, 1994 e em 2002 deixamos de ser um vira-latas entre os homens e o Brasil um vira-lata entre as nações. 

O discurso de Dilma na abertura da Copa tem que ignorar o rosnado dos pessimistas ouvido em esquinas e botecos, que pedem que tenhamos humildade. Para o célebre torcedor do Fluminense, é uma abjeção falar em humildade no Brasil. Diante das riquezas do chamado Primeiro Mundo, somos um povo de paus-de-arara, tal como Lula foi um dia. Cada um de nós é um retirante de Portinari, que lambe sua rapadura ou coça sua sarna. A humildade tem sentido para os césares industriais dos Estados Unidos e da Europa. Nós, paus-de-arara, precisamos, inversamente, de mania de grandeza. 

A Fifa e seus representantes nos tratam como paus-de-arara justamente porque não cultivamos a mania de grandeza. Nós mesmos nos criticamos e expomos nossos eventuais defeitos. Todo país tem defeitos, não apenas o Brasil. Mas nem todos expõem seus problemas como que em um campo de nudismo. Os protestos que ocorreram em junho de 2013 foram extremamente prejudicais para os interesses comerciais da Fifa e seus patrocinadores. O motivo é simples: toda a mídia, naquela época, foi ocupada pelas manifestações, e não pela logomarca das empresas, pelos gols espetaculares, entrevistas de jogadores e tudo que tinha a ver com o torneio. Foi uma oportunidade perdida. A Fifa, ao criticar o Brasil, está inadvertidamente fornecendo combustível para que tenhamos novos protestos durante a Copa do Mundo. Está criticando o governo, suas decisões e atuação -, exatamente o que fizeram e fazem os manifestantes. 

É bem verdade que a entidade que comanda o futebol mundial mudou bastante o tom nas últimas duas semanas. Contudo, está ainda muito longe de contribuir, com suas declarações públicas, para o sucesso do evento. Criticar publicamente prefeituras, governos e clubes de futebol como a Fifa fez na última semana não ajuda em nada para que os objetivos e prazos de entrega de estádios e infraestrutura sejam cumpridos. Isto aqui é Brasil. Somos contra o conflito, só tolerável em circunstâncias muito específicas e, preferencialmente, em situações que não sejam públicas. A crítica pública ao Brasil, vale repetir, quando feita por uma entidade com a importância da Fifa, pode se tornar combustível para novas manifestações na Copa. 

O grande problema em que se incorre ao falar mal da organização da Copa do Mundo no Brasil é que, de acordo com pesquisa do Instituto Análise, 83% dos brasileiros torcem pela seleção, 82% dizem que assistem aos jogos do Brasil durante as Copas, 70% torcem por um time de futebol, 64% se interessam por notícias sobre futebol e 60% conversam ou fazem brincadeiras sobre futebol com parentes e amigos. A proporção dos que respondem afirmativamente a todas essas cinco perguntas é de impressionantes 51%. Ou seja, pouco mais da metade da população brasileira torce pela seleção, assiste seus jogos, têm um time de futebol, se interessam por notícia de futebol e fazem brincadeiras e conversam sobre o tema com parentes e amigos. Para bom entendedor, meia palavra basta: no Brasil, o futebol não é brincadeira. 

A comunicação da Fifa ajudaria muito para o sucesso da Copa – que já está garantido, por se tratar de um torneio que ocorre no país do futebol – se dissesse que está impressionada com a criatividade dos brasileiros para resolver suas dificuldades e que essa criatividade está assegurando que tudo fique pronto a tempo do evento. A Fifa pode dizer ainda muitas coisas elogiosas ao Brasil que esteja em consonância com a percepção que temos de nós mesmos. Pode afirmar que, nos últimos anos, o Brasil resolveu com sucesso problemas como a inflação, reduziu a desigualdade, diminuiu o desemprego, adotou políticas sociais de sucesso e que tudo isto mostra que o país é mais do que capaz de fazer uma excelente Copa do Mundo. 

A Fifa pode afirmar também que o Brasil é um país de diversidade e tolerante, que não tem uma cultura de conflito e que por isso tem a certeza de que todas as seleções e todos os turistas vão adorar estar no Brasil durante a Copa. Pode enaltecer nossas belezas naturais, nossas cidades históricas, as inúmeras atrações que estarão disponíveis para os visitantes estrangeiros. Não esqueçamos que no meio da Copa do Mundo ocorrerá a festa de São João e os gringos, que apenas ouviram falar do Carnaval, ficarão gratamente surpresos com esta enorme manifestação de energia e vitalidade de nossa sociedade. A Fifa poderia fazer uma mísera menção ao nosso São João. Seria bom para ela, para a Copa e para os patrocinadores. A população adoraria ver a entidade máxima do futebol elogiar uma festa que é dela, população. 

Se a Fifa fizer tudo isso, contribuirá enormemente para reduzir as chances de vaia na cerimônia de abertura da Copa. Não ficaríamos muito à vontade em vaiar quem mostra apreço por nós. 

Nota: este artigo faz uso prático do texto de Nelson Rodrigues publicado em “O Globo”, em 15 de junho de 1966, com o título “O escrete precisa de amor”. 

Alberto Carlos Almeida, sociólogo, é diretor do Instituto Análise e autor de “A Cabeça do Brasileiro”.
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